Micheli Souza e sua cadela Kiube. Foto: Caroline Sampaio Brito
No dia 3 de janeiro de 2025, o governo da Bahia divulgou em seu site oficial uma ação dentro da campanha Janeiro Branco, com o tema “O que fazer pela saúde mental agora e sempre?”. A iniciativa, realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com a Secretaria de Educação da Bahia, oferece atendimento psicológico gratuito ou a preços acessíveis durante o mês de janeiro, com foco na promoção dos cuidados com a saúde mental desde a infância.
A realidade enfrentada por Micheli Souza Silva, ex-funcionária de uma empresa do setor veterinário, evidencia como o ambiente de trabalho pode ser um fator de adoecimento psicológico. Durante seis anos, no seu primeiro emprego formal, ela relata ter sido alvo constante de assédio moral, que resultou em depressão, ansiedade e outros problemas de saúde.
“Fui criticada por coisas que não tinham relação com o meu trabalho. Chegaram a dizer que meu cabelo era ridículo”, conta. Além disso, ouvia comentários ofensivos como “Vai passar doença para as pessoas” e críticas sem fundamento, como “Não gosto do jeito que você segura a caneta”.
O advogado Sidnei Suzarth, especialista em Direito Previdenciário, Trabalhista e Criminal, destaca em artigo publicado no site JusBrasil que esse tipo de prática é mais comum do que se imagina e explora a vulnerabilidade econômica e jurídica dos trabalhadores.
As consequências do adoecimento
A sobrecarga de trabalho, aliada às humilhações constantes, impactou diretamente a saúde de Micheli. “Raramente almoçava, tomava café ou conseguia dormir”, relata. O quadro evoluiu para depressão, ansiedade, anemia, problemas intestinais e espasmos que simulavam convulsões.
Em 2023, a revista Forbes publicou um levantamento indicando que 52% dos problemas de saúde mental no ambiente corporativo estão relacionados ao estresse e à ansiedade.
O agravamento da saúde de Micheli foi tão severo que ela precisou usar cadeira de rodas e recorrer com frequência a atendimentos de emergência. Apesar de ter conseguido afastamento pelo INSS por doença ocupacional, foi demitida ao retornar ao trabalho. Sem apoio jurídico, não conseguiu buscar os direitos na Justiça. Atualmente, empregada em uma nova função, ela ainda enfrenta os impactos do que viveu. “Eu não durmo à noite”, desabafa.
Psicologia no ambiente corporativo
O presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Pedro Paulo Bicalho, ressalta a importância da atuação dos psicólogos no ambiente de trabalho e a necessidade de articulação com o Ministério Público do Trabalho para combater práticas abusivas.
A psicóloga Jéssica Matos, que atua em Feira de Santana (BA), reforça que qualquer trabalhador pode desenvolver problemas emocionais, independentemente do perfil. “Não existe um grupo mais suscetível. Uma cobrança excessiva ou até uma palavra podem ser gatilhos para alguém que já carrega traumas anteriores”, explica.
Para ela, a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis é uma responsabilidade conjunta de empresas, governo e sociedade. “Nada é do nada”, afirma, defendendo que os sinais de adoecimento nunca surgem por acaso.

1 thought on “Saúde mental no trabalho: quando o ambiente profissional adoece.”